Reflex�es:
Amores
Um de meus
maiores sonhos na vida foi ter algu�m com quem passar estes longos dias de velhice. E ah!
que nunca saberei o que � chorar aos bra�os de uma mulher ou resvalar minha cabe�a
sobre um peito arfado de paix�o mesmo ap�s os anos juntos e contar todos os meus
desesperos de rabugento. Este foi um de todos os meus desejos que n�o consegui ver
realizado. Talvez tenha sa�do beneficiado pelo fato de n�o estar sendo visto enrugar por
ningu�m e de n�o ver ficar velho o rosto de uma companheira outrora t�o bonita. N�o
iria suportar. Considero que eu n�o sei envelhecer.
Contudo
j� tive a sensa��o de encostar meu corpo em uma pele sedosa de mulher. Fui casado, com
a esposa errada, por�m. Tantas mulheres no mundo e fui escolher a mais enjoada de todas.
Deus me perdoe em diz�-lo, ela me deu alguns minutos de felicidade em vida, s�. N�o
ag�entei mais de um ano e me separei, sem dor no cora��o nem sentimento de culpa.
Somente
lamento a injusti�a que j� me fora feita. A mulher verdadeiramente correta se me escapou
das m�os anos antes de casar-me com aquela. Era perfeita, e amava-me deveras. Morreu no
parto, tentando p�r no mundo um filho meu. Incr�vel como um novo ser pode tornar-se um
estorvo mesmo antes de nascer. At� hoje me culpo, n�o deveria ter insistido naquele dia
em que ela j� havia me dito n�o. Esperado despos�-la para satisfazer a carne. Ou
ter-lhe imposto a casamento. Teimosa como era, iria recus�-lo. Diria que n�o entraria na
igreja "de barriga", era seu sonho ver-se vestida de noiva. Senti muito sua
falta; as l�grimas sempre derramei em segredo, at� mesmo ao seu leito observando-a
deixar-me, comoveram e indignaram a todos que a velavam meu sil�ncio. N�o lhe pegava as
m�os, n�o movia um gesto; s� a olhava fixamente como que pedindo que me levasse junto,
ou que se apegasse ao resto de vida para poder voltar para mim. Os meses que se seguiram
foram de total isolamento. E creio que a v�bora com quem vim a casar-me posteriormente
aproveitou-se desse meu estado para me domar e conquistar ilicitamente meu pedido de
uni�o. Fui tolo. Tolo e infeliz.
Deixemos
as tristezas, entretanto, nunca me agradou falar delas ou nunca me comoveram mais ao
lembr�-las. Falemos de meu primeiro amor. Ing�nuo e interesseiro como todos os primeiros
amores. Era colegial e bem apreciado pelas garotas. A fam�lia rica ao menos me dera bons
estudos e as roupas desejadas. Andava sempre bem vestido, os sapatos novos, o cabelo
aparado e penteado, e perfumado, n�o h� mulher no mundo que despreze tais tratos. Santo
Perfume Franc�s! Tu me valeste alguns beijos naquelas t�o badaladas festas, atr�s das
grandes e barulhentas caixas de som! Fazia sucesso, dava o prazer de minha companhia
somente �quelas que me cativavam com algum encanto, apesar de ter todas �s m�os. Com
isso n�o irritava as outras, ao contr�rio, fazia-as me querer mais! E n�o contava
vantagens, deixava para as que j� experimentaram fazerem tal coisa. As intimidades eram
garantidas e s� minhas. N�o as confiava nem mesmo ao melhor amigo.
Tanta
fartura n�o me fez amar de fato. O amor, este sentimento-flor, brotou em mim atrav�s das
belas pernas de Let�cia, uma morena que abalava cora��es e regras de uma escola de
padres usando proibidas saias bem acima dos joelhos. Nunca havia visto tanta beleza e
perfei��o naquelas curvas e m�sculos bem trabalhados. Garanto que n�o era eu o �nico
a imaginar como aqueles pares de sedu��o poderiam terem lhe sido adquiridos. Pelas
academias de gin�stica, que s�o a maior inven��o da est�tica at� hoje, com certeza.
Mas n�o nego que deveria haver uma co-produ��o divina neste filme. Realmente Deus lhe
tinha sido generoso .... demais!
Este
presente, no entanto, valeram-lhe algumas semanas de expuls�o, e v�rios anos de
persegui��es e palavras nossas. N�o lha culpo por demonstrar que bem as apreciava, que
gostava de se ver cortejada. Tinha todos os motivos para ser. E que at� a Santa Igreja me
perdoe a confiss�o, mas os padres do col�gio tiveram de rezar muitas preces ap�s a
volta de Let�cia; os caprichos de Eva n�o foram recusados por Ad�o.
Quanto a
mim, procurava sempre estar ao lado dela, minhas palavras sei que a agradavam. N�o
chegava a tanto me insinuar como os outros meninos, era at� sutil, discreto, cativando
aos poucos a sua confian�a. O primeiro beijo provocou sentimentos diferentes no fundo de
minh�alma, arrancando suspiros de Let�cia e arrepios de meu corpo ao tocar seus
bra�os nus. Lamento no entanto um vestido decotado cobrir-lhe o resto do corpo naquele
baile do col�gio.
O anseio
pela descoberta do que significava este sentimento novo fez-me continuar com ela no dia
seguinte, e no outro, e na semana seguinte, e quando me dei por mim j� se passavam um
m�s e come�ava a descobrir o amor despontando em meu cora��o. Declarei isto � morena,
ela abra�ou-me muito forte. Esperava semelhantes palavras de sua boca, e n�o as ouvi.
Isso me decepcionou um pouco; mais tarde fui entender que as mulheres se demoram a
declarar.
Namoramos
firme durante quase um ano. Lembro-me at� do dia dos namorados juntos. Meu primeiro. Quis
dar-lhe um presente especial, fui � joalheria, comprei um colar do qual me lembro at�
hoje, fino e de ouro, com um pingente em forma de cora��o. Coloquei-o em uma caixa em
forma de cora��o tamb�m, feita de papel reciclado que comprei na papelaria ao lado.
Pareceu-me adequado. E Let�cia o tem at� hoje decerto, pois quando freq�entava a
faculdade, reencontrei-a em um show de rock usando o tal colar, que at� lhe ficava sutil
no colo moreno. Realmente n�o me enganara o vendedor dizendo que ele duraria muito tempo .
Recebi no mesmo dia um livro de poesias completas de Cam�es (ela sabia que me encantava
com literatura), com capa vermelha de veludo que, confesso, ainda o fez durar longo tempo,
conservando-o intacto mesmo ap�s as l�grimas que derramei-lhe em cima ao chorar por ter
perdido as lindas pernas de Let�cia dias depois. Quanto aos versos daquele poeta
portugu�s, n�o se comparam �s filos�ficas estrofes de nosso Drummond ou �s do ilustre
enfermo Andrade. Ao Cl�ssico se imp�e o desregrado Modernismo. Assim como aos antigos
amores meus se sucedem os novos, tamb�m bastante desregrados.